terça-feira, 27 de março de 2012

Sobre animais de estimação

Eu sempre quis ter um pinto. Desde pequeno, queria ter um pinto. Não me entendam mal, mas pra mim o bicho é engraçadinho. Acho até que foi influência da Edna. Edna era uma moça que trabalhava na faxina lá em casa e chocava ovos de galinha no sovaco, uma graciosidade. Lembro-me que ela tinha porte pequeno, fumava e ostentava várias tatuagens pelo corpo. Enfim, o padrão que se procura numa empregada.

A Edna, essa que chocava ovos de galinha no sovaco, morava perto da minha casa, nos fundos do terreno de uma vizinha que tinha um macaco. Você agora pode estar pensando que fui criado em meio a uma tribo massai no Quênia. Não. Este cenário tão absurdo quanto real é a boa e velha Araranguá dos anos 90. Não me recordo com clareza daquele macaco da vizinha, mas ainda sei que o adorava. Pelo que me recordo, o primata teve que ir embora. Houve algum problema com outros vizinhos, uns bananas.

Cresci com animais em casa. Não, não estou falando de meus pais – até porque a adolescência já passou... Lá em casa já tivemos cachorro, gato, peixe e um papagaio criativamente chamado de Louro, um bichinho bacana criado livremente, mas com um vício terrível em tele-sexo. O.k., a parte do tele-sexo é mentira.

Meu pai e eu sempre adoramos animais, especialmente cachorros vira-latas, mas minha mãe nunca foi muito fã. A verdade é que ela não teve experiências boas com os cães que passaram lá por casa, apesar de todos terem sido muito prestativos: recolhiam as roupas do varal, informavam com as unhas que as portas estavam fechadas, defecavam na casa para não sujar o pátio. Até hoje nos perguntamos por que não deu certo.

A minha sogra tem uma cadela muito simpática, a Bilu. A Bilu é uma mistura clássica de Street Dog com Jaguara, coisa mais linda. É a guardiã da casa, desde que não haja fogos de artifício ou chuva, trovões e relâmpagos: nestes casos, é a primeira a abandonar o barco. Encurtando conversa, é uma cagona.

Além da Bilu, minha sogra agora deu pra andar pra cima e pra baixo com uma galinha. A danada já tem até nome: Matilda. Penso eu que a galinha da minha sogra – sem trocadilhos com a família, por favor – é um ser raro da espécie: nunca vi bicha tão feia de magra. Atualmente há uma grande polêmica na casa, pra saber se a Matilda vai ou não parar na panela. A votação continua e a chocadeira já está no paredão: é que montaram um galinheiro pra sem carne ao lado do muro.

O fato é que um animal sempre movimenta o lar e é preciso estar preparado para recebê-lo. A Matilta, por exemplo, tem feito todos acordar às cinco horas da matina por conta do cacarejo. Não que o canto seja muito alto, mas ninguém consegue dormir com a minha sogra caminhando pela casa: é que ela vai até a galinha fazer “shhhhhhhh”. E a Matilda obedece, garante. Viu o trabalho? Pois é. E nem todo mundo tem a consciência, ao comprar um animal, de que aquele bichinho vai precisar de atenção – e que, ao contrário de Jesus Cristo e dos não menos gloriosos Tamagotchi, eles não ressuscitam após os maus tratos.

Aliás, você já parou pra pensar no termo “animal de estimação”? Animal de estimação é todo e qualquer bichinho pelo qual você tenha algum apreço. Não basta apenas ter o animal: é preciso cuidar da criatura. Tem gente com bicho em casa que não tem a mínima estimação pelo infeliz. É o tipo de pessoa no qual – penso eu – não se pode confiar. Lembra da Edna, a empregada do começo da conversa? Ela podia ser meio estabanada, não ter uma aparência exatamente boa, ser aquela mulher que você não colocaria pra limpar a casa pelo estúpido estereótipo que procuramos em todo mundo. Mas a Edna cuidava de seus pintos com estima. E de mim com afeto. Era o que bastava. E você, que é “normal”, o que faria pela vida de um pinto? Responda a si mesmo.

PS: Agora, com vocês... Gugu Liberato!



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 27 de março de 2012.

terça-feira, 20 de março de 2012

Vinte e dois homens atrás de uma bola

Garotada no futebol: desde sempre
Vinte e dois homens correndo atrás de uma bola. Para boa parte das mulheres, essa é a melhor definição que se pode dar ao futebol. Para outra boa parte, é a única. E mais: isto não faz o menor sentido para elas.

Os homens já nascem pré-dispostos a gostar de futebol. Minha mãe conta que eu fazia até embaixadinhas no ventre dela, coisa mais linda... E quando o menino nasce, quais os presentes mais comuns? Roupinhas de time. Meu afilhado recém-nascido, coitado, já ganhou vestimentas de Grêmio, Santos e São Paulo – por enquanto. O menino anda tão indeciso que, penso eu, vai acabar torcendo só pra seleção brasileira. Na Copa. Em jogo de final.

Quando o garotinho cresce, que presente ganha? Uma bola. É pra cima e pra baixo com a gorducha no pé, incomodando todos os tios e primos mais velhos para jogar uma travezinha livre que seja, um mano a mano, um bobinho qualquer. E as meninas, onde estão? No quarto, brincando de casinha, num mundo perfeito onde o Ken não sai pra bater pelada na sexta-feira à noite com a turma deixando a Barbie sozinha. Doce ilusão.

As mulheres crescem e o futebol continua sem sentido. Aos dezessete elas estão lá no recreio da escola, devidamente perfumadas e vestidas em suas calças colantes, e a molecada, vai pra onde? Pra quadra de futebol. Retornam às paqueras suados, vermelhos do sol, de raiva pelo sinal que bateu cedo demais. Bobos porque ganharam, tolos porque perderam. Por que existes, maldito futebol?

A essa altura a mulher já não suporta ouvir falar da bola. Está cansada de ver vinte e dois correndo na TV quarta-feira à noite, sábado e domingo à tarde. Vai questionar por que existe impedimento, vai se irritar com o zero a zero chato, vai odiar a reportagem com os melhores momentos do jogo – aquele que terminou em zero a zero e acabou de passar.

Gostamos de futebol e ponto. Não confie num homem que não goste – bom sujeito não é. Mas não se trata de uma competição com vocês, suas lindas. E não se esqueçam que também toleramos a novela, sem ao menos questionar porque vocês fazem tanta questão de ver o capítulo depois de saber exatamente o que vai acontecer com o Pereirão lendo o resumo no jornal. Então tenhamos calma. Até porque nós somos seus todos os dias. A menos que tenha jogo.

PS: Agora, com vocês, Skank...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 20 de março de 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mulheres, suas lindas!

Homens: aos pés delas desde sempre!
E Deus criou a mulher... e Ele viu que era boa! As danadas comemoram o seu dia internacional depois de amanhã e, claro, nós somos obrigados a lembrar – o que me faz recordar, também, que a reciprocidade é zero. Mas como somos queridos, fofos, quase panacas, ói nóis aqui traveiz! Homens sensíveis que somos reunimo-nos só para gritar, em uníssono, parabéns, suas lindas! E só pra constar: essa coluna contém opinião e humor de quinta, só que na terça-feira. Então não pensem que vocês vão escapar de uma piadinha ou outra, nas próximas linhas, só porque está perto do 8 de março...

Dizem que o nosso Senhor meu Deus fez a mulherada a partir da costela do homem, mas a Angelina Jolie deve ter saído mesmo é da picanha. No mais, explica muita coisa terem vindo da costela as nossas queridas companheiras – isso no caso de você também ser um destes caretas
Esqueci o que ia escrever aqui
heterossexuais, é claro. Primeiro porque toda mulher é osso duro de roer. No melhor e no pior dos sentidos. Elas são capazes de aguentar firme, por exemplo, todas as provações de um mundo que ainda é essencialmente machista. Agora tente convencê-las de que não necessitam de mais um par de sapatos...

Ainda falando sobre a criação divina, esta tese sempre gera discussões. As mulheres vivem nos chamando de rascunho, pelo fato de termos sido criados antes das “obras-primas do Senhor”. Tolice, até porque elas sequer saíram de uma carne considerada nobre. Mas sem brigas. Para ser
TPM: tendência para matar
franco mesmo, sem vocês o churrasco não ficaria completo e, provavelmente, eu viveria como um triste vegetariano.

A verdade é que se Deus criou algo melhor do que a mulher guardou para Ele. Eu ainda acredito piamente que exista alguma versão de testes sem TPM guardada lá pelas bandas do paraíso, mas infelizmente não há comprovação científica para tal tese. Não que a tensão pré-menstrual seja algo que irrite apenas os homens, óbvio. É pior: a TPM é a verdadeira causadora de todo o mal existente no mundo. Quantas vidas humanas, quantas roupas jogadas pela janela, quantas casas incendiadas não poderiam ter sido preservadas caso a TPM não existisse? Jamais saberemos.

Dilma: Limpa a PORRA do pé, Palocci...
Se hoje a mulherada é muito celebrada, nem sempre foi fácil. A elas não cabia pensar, ler, votar, falar, ser. Barreiras que graças a Deus, e graças ao empenho delas, foram superadas. Hoje temos mulheres nos mais altos cargos executivos, no comando de empresas e de países e até mesmo em profissões pouco “femininas”, como a de caminhoneiro(a), dá pra acreditar? Mas é claro que nenhuma profissão tem sexo pré-estabelecido... Pesquisa recente do Fantástico mostrou que são elas, aliás, que estacionam melhor o carro. Seguros de veículos também são mais baratos para a mulherada, as quais seriam mais atenciosas ao volante... Algumas calotas contestam, mas ainda não há reclamação formal registrada.

Cravo bom de espremer: coisa de mulher
Poder conviver com uma mulher é provavelmente a experiência mais significativa que um homem pode ter durante a vida. Com minha mãe, por exemplo, aprendi que se deve baixar a tampa do vaso sanitário após usar o banheiro – algo que jamais descobriria com papai, possivelmente. Com minhas amigas, aprendi o significado das palavras blush, strass e bojo – essa última sempre acompanhada da palavra “decepção”. Com minha namorada, aprendi que o chocolate pode ser a cura e que as flores podem ser o perdão. Ou não, mas não custa tentar. A todas, o meu obrigado. Parabéns!

PS: Agora, com vocês, Neguinho da Beija-Flor...



Mulher, mulher, mulher,
mulher, mulher,
mulher, mulher.

Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 6 de março de 2012.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Carnaval e os perigos da folia

Judas pegando o que merece...
Terça-feira passada não teve coluna porque também sou filho de Deus. E se Deus é realmente brasileiro aposto que o Senhor deve ter pulado o Carnaval, com dedinhos pra cima e tudo. Parece que até Judas saiu num bloco de sujos, o danado... Só Jesus que não curtiu a festa, anda meio pregadão. No fim ficou em casa com Pedro, que estava quase na avenida com a Maria Madalena, mas viu no “Face” dela algumas fotos suspeitas e se negou a sair na última hora. Três vezes!

Enfim, o Carnaval é o principal período de festas aqui no Brasil. É o momento em que o nosso povo pode tirar as suas fantasias do armário, e os nossos homens podem sair dele. Os quatro dias de festa – ou os 96, caso você esteja na Bahia – são provavelmente a época mais permissiva do ano. É um clima de love is in the air, de nobody é de nobody. O pessoal já sai de casa com a intenção de beijar na boca, e possivelmente em nenhuma outra parte do mundo há tanta troca de afeto. E de saliva. Sejamos francos: é preciso ter coragem para enfrentar uma boca alheia nas últimas horas da terça-feira de Carnaval, quando a folia toda já passou por ali.

Carnaval: troca de afeto e salivas²
Como eu tenho namorada, não corro esse risco – pelo menos, é o que espero. Sempre rolam aqueles comentários maldosos no período de Carnaval, de que a vida a dois não vale a pena nesta época do ano. Para quem está em meio a um compromisso sério, o jeito é esperar o Dia dos Namorados e devolver o veneno... Opa, eu disse Dia dos Namorados? Pensando bem, o povo da folia já vai voltar a dormir sozinho na Quarta-feira de Cinzas, enquanto os namorados estarão na boa e velha Quarta-feira do Sofá. Durmam com um barulho destes! Com trocadilho, por favor.

Texto de Carnaval sem bunda: não dá
Mas o.k., admito: para quem não se importa com higiene bucal, o Carnaval é uma delícia. O clima é de folia e a palavra de ordem nos quatro dias de festa é pegação. E rola muita pegação... Pega-se Aids, sífilis, gonorreia, coceirinhas em geral. E o mais grave: filhos. O mês de novembro está cheio de crianças produzidas quando os seus pais falaram “ô abre alas que eu quero passar” e as suas mães liberaram na avenida a Portela. A consequência disto é eterna, e o Carnaval não para: nove meses depois, a marchinha continua no ritmo de “mamãe eu quero mamar” e, 15 anos mais tarde, um garoto cheio de espinhas vai cantar a conhecida “ei, você aí, me dá um dinheiro aí”, enquanto você já não tem mais razão para tentar levantar a pipa do vovô em casa com aquela colombina de outrora. Faltam motivos aparentes. Na aparência dela, no caso.

Despertar na Quarta-feira de Cinzas...
Certo, exagerei um pouco, Carnaval não é apenas beijo na boca e sexo. Também tem álcool. Estes são os dias do ano em que mais sobra cerveja e falta glicose nos organismos. As consequências disto são desastrosas: acidentes nas estradas, falta de bom senso com o próximo, beijo na mulher mais feia da festa, despertar do lado de um segurança de festa chamado Átila. Definitivamente a bebida atrapalha. Ou pelo menos desorienta... Quer saber? Ainda bem que passei o Carnaval namorando.

Profissão repórter

Neste Carnaval eu cobri o desfile oficial das escolas de samba de Laguna para a RBS TV, onde trabalho atualmente, junto com o cinegrafista Gregori Flauzino. Entre um “filma nóis, Galvão” e outro, eis que surge um homem e me pergunta: “Dá pra tirar uma foto?”. “Claro”, respondi, já dando aquela ajeitadinha básica na gola da camisa pólo da Globo. “Beleza, mas tenta enquadrar só o meu amigo e eu...”.

Moral da história: Não importa onde você trabalha... O que importa é quanto o seu trabalho fotográfico ainda é reconhecido.

PS: Agora, com vocês, a Turma do Funil*!



* Essa música foi escolhida pela Veja como a melhor marchinha de Carnaval de todos os tempos!

Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 28 de fevereiro de 2012.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O pior bicho da Terra

Bicho maldito!
Se Deus é o inventor de todos os animais, o cupim é cria do capeta. Êta, bicho danado! Enfrento um exército de homens, mas não topo contra uma gangue de cupins. São uns animaizinhos malditos e famintos. Devoram qualquer que seja a coisa que veem pela frente. Paredes, portas, janelas, guarda-roupas, camas, bidês, raques, cozinhas inteiras. Já vivi em casa com cupim, sei como é. É um pavor constante. O bicho é tão comedor, mas tão comedor, que não dá nem pra se arriscar a dormir de bruços...

Quando era criança, achava que os cupins eram aquelas bolinhas que ficavam pelos vários corredores da minha casa. Ta bom, eu admito, é mentira: a minha casa só tinha um corredor. Enfim, anos mais tarde descobri que aquelas centenas de bolinhas que se espalhavam pelos cômodos e nas quais eu pisava sem dar importância eram, na verdade, as fezes do cupim. Ou seja: a minha casa era virada em merda. E não é fácil lidar com isso quando se passa a entender o mundo... A terapia ajudou.

Tragédia em casa...
Ao mesmo passo em que eu crescia, a pobre residência ia desabando. Culpa dos cupins. Chegou um ponto em que a minha casa tinha mais buracos nas paredes do que barraco em favela carioca dominada pelo tráfico... Aí você pode estar pensando: “Mas lá no Rio a situação é mais grave, Renam, as marcas são de tiros”. O.k., concordo, mas no Rio de Janeiro o inimigo pelo menos pode ser vencido.

Não tem o que fazer. Esta é a mais pura – e triste – verdade. Basta apenas rezar, pedindo que o forro não caia sobre a sua cabeça... Aliás, quem tem casa de madeira tomada por cupim precisa mesmo se apegar no santo. Quando dá vento forte, o jeito torcer para que a casa aguente o tranco. Quando vai chegar visita, só resta ter fé que os detritos fecais da praga não vão sujar todo o chão encerado na peroba. Quando é para fazer amor, só basta acreditar que os vizinhos – e as crianças no quarto ao lado – não vão ouvir nada. Êta, bicho danado!

As intermináveis fezes pela casa!
Graças a Deus a casa onde moro foi reformada no dia do atentado – já falei sobre isto aqui. Hoje consigo até dormir tranquilamente, o que não acontecia nos anos do “cupinzal”. É sério: com a quantidade de detritos que caíam do teto, era capaz de a gente até se afogar durante o sono. Ou encontrar uma chapa de MDF no vaso sanitário dias depois. Tenso.

Com a casa reformadinha no concreto, eu estava vivendo em paz, me sentindo livre da praga... Estava. Outro dia andaram me falando que até tijolo o cupim deu pra comer. Se é verdade ou não, ainda não descobri, mas, por via das dúvidas, não tenho mais dormido de bruços. Êta, bicho danado!

Outros bichos escrotos

Mosquito do jeito que gosta...
Se em algum dia da minha existência eu topar com Deus por aí, quero olhar no fundo dos belos olhos dele e dizer... “Pai... óóóóóó, Pai... diga-me: pra que diabos inventastes o mosquito?!”. Na lata, na bucha. O mosquito tem alguma outra função neste planeta que não seja dar coceira e passar dengue? Pode ser que algum chato ecologicamente correto venha me dizer que eles ajudam a controlar a cadeia alimentar, fazem parte da balança do ecossistema, alimentam alguns outros animais... balela! Acho que os animais que se alimentam de mosquito poderiam muito bem mudar o cardápio para a alegria geral da floresta. E vamos ser francos: defensor de mosquito só pode gostar de sentir a picadura.

A dita cuja na minha cama...
E baratas? Qual é a função das baratas no Reino de Deus, Senhor? Fala sério... A barata até hoje só serviu para apelidar carro, causar histeria entre as mulheres e inspiração em pagodeiro. Fato: você pode nunca ter sido afetado por uma barata, mas com certeza já ouviu a música dela no rádio, na televisão ou nos últimos assentos de algum ônibus de excursão. Então como sei que você já viveu este pesadelo, aqui vai uma dica: compre um otorrinolaringologista para se defender.

PS: Agora, com vocês, Só Pra Contrariar...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 14 de fevereiro de 2012.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Inversão de papéis

Homem: definitivamente, o sexo frágil
Está cada vez mais difícil ser homem nesse mundo feminista. As mulheres nos esqueceram. Agora só ligam para o trabalho, para as contas, para os próprios automóveis e suas balizas. Eu quero uma mulher que me dê flores. Eu quero alguém que abra a porta do carro para eu entrar. Eu quero alguém que não me deixe puxar a carteira do bolso e pague toda a conta do restaurante, as entradas nas festas, o chopp no bar. Eu quero alguém que esteja comigo porque me ama e não me trate apenas como uma máquina do sexo. Que ouça os meus problemas e apenas escute, sem achar que tem sempre a resposta certa para resolver tudo – se fosse assim fácil, você não teria problemas, queridinha. Eu quero alguém que esteja em casa para assistir o futebol comigo na quarta-feira, dia de sofá, e não junto de outras amigas para beber e assistir GNT. Definitivamente, eu quero uma mulher que me dê todos os direitos que ela e suas amigas detêm. Eu, e todo o restante do meu grupo. O sexo frágil. Nós, os homens heterossexuais.

Homens são sensíveis...
As mulheres lutaram para conquistar o seu espaço. Primeiro, aumentaram a cozinha. Depois, saíram de casa. Aí o bicho pegou... Diminuíram o tamanho da roupa de baixo. Tiraram quase toda a roupa de cima. Começaram a votar. Queimaram os próprios sutiãs em praça pública. Criaram o anticoncepcional e a pílula do dia seguinte. Tiraram nossas vagas no mercado de trabalho. Obtiveram segmentos especialmente voltados para elas no comércio automobilístico. Até futebol estão jogando! E olhe só que ultrajante: melhor do que nós – ou vai dizer que você não tiraria o seu camisa 9 para colocar a Marta no ataque do time?

Homens choram por qualquer coisa...
Nada mais justo do que o mundo tratar as mulheres do mesmo modo que trata a nós, homens. Só que alguma coisa ficou mal explicada nessa revolução... O fato é que a mulherada queria ter direitos iguais, conquistou, mas algumas se esqueceram de que deveria ser igual em todos os aspectos. Como é que é, suas feministazinhas revolucionárias? Não era pra ser igual? Então agora aguentem! Chega de ter o cartão de crédito pago. Chega de ser bancada pra tudo. Chega de receber flores no Dia da Mulher e não ter que dar presente algum no Dia do Homem – que você nem sabe quando é! Chega de pedir chocolate, mas não pagar a nossa cerveja. Chega de receber a ajuda de flanelinha para estacionar o carro. Chega!

Mulheres: más forever
Vocês conquistaram os nossos direitos, agora queremos os seus. Cadê o romantismo? Cadê os presentinhos e mimos? Cadê as cintas-ligas? Cadê a banheira cheia de pétalas de rosas e as duas taças de vinho para nos receber após o trabalho? Cadê?! Assim não dá... Se a situação não melhorar dentro em breve, vamos começar a forçar a barra: ou vocês também começam a preencher o nosso vazio existencial, ou em outubro já não tem mais voto. E sem choro, porque esse é um benefício que nós, homens, ainda não conquistamos.

Um apelo aos irmãos heterossexuais

Avante, homens!
Sei que somos um povo discriminado. Sei que estamos em extinção e que deveria haver uma lei ambiental para proteger a nossa espécie... Mas agora quero fazer um apelo a você, homem heterossexual, que resiste bravamente a este mundo predominantemente colorido: não se deixe enganar pelas mulheres que só querem ter direitos até certo ponto. Uma parte da mulherada – não o todo, nem a maior parte, mas uma boa parte – quer todos os direitos e espaços antigamente dominados por nós, homens, mas, na hora que convém ser o sexo frágil, faz beicinho e nos dobra direito. Trouxas que somos, caímos – nós é que somos frágeis!

Basta. Este é o momento. Não nos deixemos dominar por este exército de coxas grossas, seios firmes e bocas carnudas... Avante, homens! Revoltemo-nos contra esta categoria, por mais gostosa que seja! Esconda o cartão de crédito, cancele o pedido de flores e não volte a abrir portas de carro até que você obtenha os mesmos direitos... Força, irmãos! Se nos unirmos e ficarmos juntos, também podemos conquistar os nossos benefícios. Mas não muito juntos, claro, porque daí já é viadagem...

PS: Agora, com vocês, Chico Buarque...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 7 de fevereiro de 2012.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O calor do verão

O lado bom do verão
Verão, sol, praia. Estamos na estação mais quente do ano, quando os ânimos também se acaloram. Por todos os cantos vemos festas, bebedeiras, kuduro. Nada mais natural, o Brasil tem essa cara de verão. Culpa do Carnaval. Culpa de fevereiro. Culpa da beleza rústica que emana do sovaco suado dentro do ônibus circular cheio. Culpa da leveza da mulata que passa lentamente pela construção, parando a obra. Culpa do assassinato dos serventes, todos mortos pelo namorado ciumento da mulata. Ah, o verão. Ah, o calor.

Sim: a sua vida é uma merda
Na minha opinião, o verão é uma delícia. Mas só para quem tem dinheiro. É difícil ser pobre o ano todo, mas no verão ser pobre é pior. É dormir sem ar-condicionado. É aguentar mosquito. É usar Boa Noite espiral pendurado no garfo e esfumaçar a casa toda. É ter braço suado esfregando no seu dentro da Kombi. É passar pela catraca ensopada. É querer tomar Coca-Cola e ficar na vontade. É morrer de calor durante a semana no trabalho – onde também não tem ar-condicionado. É esperar pelo fim de semana e chover. Aliás, definitivamente, vida é chuva é sol, mas domingo é só chuva. Sejamos francos: domingo só não chove quando é seu plantão no serviço – o único dia de folga de São Pedro. No ano.

Sim, porra: a sua vida é uma merda
Resumindo tudo, verão só é bom para quem está na praia. E só quem está na praia são pessoas muito, muito ricas, e os professores. Os professores reclamam do salário o ano todo, fazem duas greves por semestre e ainda ganham dois meses de folga. Os efetivos, pelo menos, porque os ACTs (admitidos em caráter temporário) estão se acotovelando nas Secretarias de Desenvolvimento Regional para escolher as melhores vagas nas escolas. Todos devidamente encharcados de suor. É, literalmente, o calor da hora.

Além do incômodo de só pegar fim de semana chuvoso, o verão traz outros problemas, até para quem consegue curtir a praia: pessoas sem noção. Talvez seja a temperatura, talvez seja a quantidade de cerveja ingerida. O fato é que elas surgem aos montes. Esgarçam o som à beira-mar. Gritam. Usam sungas beges. Jogam latinhas pela janela do carro. Usam outras sungas beges. Se sentem as donas da orla, do mar, do pedaço. Não sabem usar as rótulas. Tomam água quente misturada com mate embaixo de guarda-sol, com 38 graus à sombra. Dizem tchê. Usam mais sungas beges.

Até o maldito Wally usa sunga bege... :(
Antes que me acusem de bullying, defendo-me: não penso que apenas os gaúchos são sem noção, muito pelo contrário. Também tem os argentinos. Argentinos são um povinho estranho. Usam tênis na beira da praia. Esticam as meias nas canelas. Se impressionam, sem disfarçar, com as bundas na areia. Trazem as sogras junto. Preferem o Maradona... Olha, argentino é um povo tão estranho que até as placas dos carros de lá são diferentes. E o pior: vem lá do país deles querendo trocar pesos pelo nosso dinheiro. Fala sério: se realmente desse para trocar peso por grana, não existia mais gordinho nesse país.

Carpe diem!
Que ninguém gosta de trabalhar no verão, todo mundo sabe, é fato. Mas verdade seja dita: ninguém gosta de trabalhar no inverno, no outono e na primavera também. O povo é danado. Dia de sol só é bom pra ficar na praia. Dia de chuva só é bom pra ficar em casa. Dia de frio só é bom pra ver filme. Dia de calor... baixa a pressão! É incrível, todo dia tem algum motivo excelente para o povo não querer trabalhar. Os dias da semana também não prestam. Segunda-feira é ressaca. Terça-feira é depressão. Quarta-feira é eternidade. Quinta-feira é longa. Sexta-feira é impaciência. Sábado é reclamação. Domingo é chuva, ou plantão. Ah, o verão. Ah, o calor.

PS: Agora, com vocês, Marina Lima...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 31 de janeiro de 2012.