terça-feira, 29 de maio de 2012

Oportunidades e afins

- Eu sou você, amanhã...
Dizem que Deus nunca fecha uma porta sem abrir o Windows. Ou quase isso. O fato é que a vida está cheia de situações com as quais não sabemos lidar muito bem, momentos difíceis em que duvidamos de nossa própria capacidade – quando não, até mesmo do próprio Deus. Ainda sobre o aspecto religioso, dizem também que o Senhor nunca nos concede uma cruz que não possamos carregar. Mas, sejamos francos: às vezes parece que Ele está de brincadeira.

Já acreditei que certas coisas só aconteciam comigo, frustrações de toda – má – sorte. São aqueles momentos de profundo silêncio e reflexão nos quais nos recolhemos aos pensamentos e, concluímos, a respeito de nossa própria existência neste plano: “devo ser cagado”. Mas, de fato, tal conclusão é precipitada: nada é tão ruim que não possa piorar. Acredite. Costumo comprovar minha tese quando algum herege a contesta – certa vez me perguntaram se existia algo pior do que uma sala de espera; pois existe: uma espera sem sala.

A verdade é que, na maioria das vezes, quebramos a cara ou por dar confiança, ou por manter esperança. Erros comuns. Tendemos a crer no próximo e, não raro, o próximo nos passa para trás, transformando-nos no anterior. O problema é que o cotidiano está cheio de sorrisos mentirosos, elogios mascarados e tapinhas nas costas. E, quando você menos espera, o tapinha vira chute. No traseiro! Por isso cuidado: só acredite na veracidade de um tapinha nas costas quando este vier no instante em que você estiver num restaurante, engasgado com o caroço de uma azeitona. E olhe lá!

Eu me relaciono com pouco mais de 1.400 pessoas no Facebook, gente que a rede social teima em nomear como “amigo”. Besteira. Amigo, amigo mesmo, desses que posso ligar quando tenho algum problema, eu tenho, no máximo, uns 20, o que já é um número consideravelmente grande. Tenho uma escala no mínimo curiosa para conferir o grau de amizade: costumo medir pelo nível de xingamentos proferidos durante a conversa. Quanto maior o número e a gravidade das ofensas que posso dirigir ao meu interlocutor sem medo de perder o seu afeto, mais brother ele é. Só não exemplifico um diálogo aqui porque, afinal de contas, esta coluna é de família.

Retomando: são estas 20 pessoas, mais a minha família, que são dignas de minha confiança em plenitude. Do resto posso esperar de tudo. De uma entrada na lista dos 20 a uma punhalada no lombo em forma de tapinha nas costas. Tal precaução é necessária para evitar futuros contratempos ocasionados, de modo geral, pela esperança. Nem sempre nos lembramos de manter a guarda levantada, mas volta e meia um gancho de direita bem aplicado nos revela que, sim, ainda estamos no meio da luta.

E a luta continua. Seja no ringue ou no octógono. E se há uma coisa que aprendi nesta vida, é que o mundo não para de girar quando fico triste e deprimido. Até mesmo porque costumo beber nestas ocasiões... Enfim. O conselho que gostaria de deixar na coluna de hoje é que, quando você achar que está à beira de um precipício, lembre-se: keep calm and carry on.

PS: Agora, com vocês, Pouca Vogal:



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 29 de maio de 2012.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Bodas de Brilhante

Amor verdadeiro nem Alzheimer apaga!
Sábado, ao meio-dia, eu tive a felicidade de acompanhar uma festa de Bodas de Brilhante. O casal, o seu Pedro e a dona Doda, comemorava 75 anos de matrimônio. Exatamente: 75 anos. Familiares próximos estavam receosos em organizar a celebração. O medo era geral, por motivos óbvios: corria à boca miúda que o casamento daqueles dois podia não vingar. Mas, pelo menos até a festa, ocorreu tudo bem na relação.

Difícil mesmo foi comprar o presente. A dúvida era justamente o que dar a um casal que completava 75 anos de casamento. Minha namorada e eu prejulgamos que, neste meio tempo, os dois já haviam conseguido completar o enxoval. Na dúvida, uma neta ajudou com alguns toques. Problema resolvido, fomos à festa.

Como toda noiva que se preze, dona Doda era só sorrisos. Já seu Pedro, como não poderia deixar de ser, estava com aquele compreensível olhar de quem entrou para a forca há 75 anos. Nada mais natural. Enquanto recebia os convidados, a mulher gabava-se de que os pombinhos jamais brigaram durante o casamento. Seu Pedro não contestava a esposa, o que, de certa forma, também explica o saldo.

A celebração foi muito bonita, com alguns familiares agradecendo pelo convívio com o casal. Um diácono – um quase padre, digamos – foi quem conduziu a benção das Bodas de Brilhante. Para espanto geral, ele não repassou nenhuma dica aos noivos, o que, entendia-se, poderia prolongar a união por mais tempo. Mas ainda assim, deixo aqui registrado o desejo de que este matrimônio dê certo, afinal.

Terminada a celebração, corri para a calculadora e descobri que o casamento do seu Pedro e da dona Doda aconteceu em 1937. Para se ter uma ideia, meus avós não haviam nascido. O presidente era o futuro suicida Getúlio Vargas. O Papa era Pio XI – já passaram seis depois dele. A moeda corrente era o mil-réis. O Fusca era apenas um protótipo, com 30 modelos fabricados. Não havia Miss Brasil. A seleção só ganharia uma Copa do Mundo 19 anos depois. Dercy Gonçalves era gostosa. O Ermo não existia.

O seu Pedro e a dona Dona tiveram quatro filhos. Pouco, relativamente, já que o padre deu a benção e liberou a festa há 75 anos. Pelos meus cálculos, dá para repetir o Kama Sutra 312 vezes neste meio tempo – a estimativa desconsiderou as supostas dores de cabeça da dona Doda e, obviamente, “aqueles” dias. Na média, o casal teve um novo filho a cada 18 anos e nove meses, o que demonstra certa prudência: antes do primeiro ano de faculdade quitado, nada de abandonar a tabelinha.

A expectativa de vida está cada vez mais alta, mas hoje casa-se cada vez mais tarde; por isso, penso ser difícil, atualmente, atingir a marca do seu Pedro e da dona Doda. De todo modo, o que fica de lição é que o casamento, instituição por vezes dada como falida, pode perdurar por muitos anos quando existe respeito, quando existe cumplicidade e quando o marido não contesta a mulher. Se continuar neste ritmo, tenho certeza de que o seu Pedro e a dona Doda ainda vão muito mais longe. Sei lá, Bodas de Oscar Niemeyer, talvez. Mas já estão de parabéns.

PS: Agora, com vocês, um tributo ao amor:



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 22 de maio de 2012.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Mamãe querida...


Sempre disse que minha mãe era um anjo... *----*
Ô, mããããããããããe! É assim que a gente chama mãe. Nada dessa coisa curtinha: mãe. Mãe é com dez a’s acompanhados de til. É desespero. É aflição, é angústia, é cólera... Pode até ser nada, mas estamos tão acostumados à entonação do pavor que acaba saindo desse jeito sempre. Pra tudo. Ô, mããããããããããe, vem me limpar. Ô, mããããããããããe, vem me buscar. Ô, mããããããããããe, cadê meu tênis? Ô, mããããããããããe, acabou o papel... Aí quando a mãe não está por perto o jeito é apelar para o pai. É, o pai, aquele homem responsável pela fecundação que, na teoria, existe para dividir as tarefas com a esposa, que está ali para suportar os desafios da criação dos filhos lado a lado com a mulher. Aí você pensa... Pensa... E grita, desesperadamente, para o pai: ô, pai... Cadê a mããããããããããe!?

A relação entre mãe e filho é a coisa mais intensa que pode existir. Isso, sem contar, que é o sentimento mais antigo e duradouro. Eu mesmo conheço a minha mãe desde que nasci. Juro: sem medo de ser exagerado, sinto que nossos destinos foram traçados na maternidade – na dela, no caso.

Quando era pequeno, lembro que acordava algumas vezes durante a madrugada, assustado. A primeira coisa que fazia, lógico, era chamar pela minha mãe... Quando ela não atendia – já que ninguém é palhaço de ficar acordando toda noite –, me escondia debaixo da capa protetora que chamam popularmente de cobertor. Até a cabeça. Lá embaixo, protegido, eu pensava: PQP, cadê a mããããããããããe!? Sei que ela não aparecia para que eu encarasse meus medos de frente – ou talvez a tinhosa só estivesse dormindo feito pedra, verdade, mas com certeza me ajudou a amadurecer.

Costumava passar as férias na casa de praia da minha avó. O itinerário era o seguinte: banho de mar pela manhã, banho de lagoa à tarde, dor de ouvido no outro dia. Era batata. Já saia de casa com aquelas gotinhas milagrosas que se costumava pingar indiscriminadamente nos ouvidos. Mas não adiantava, porque eu só melhorava quando era a minha mãe que gotejava. E sabe o que isso significa? Significa que sempre fui fresco.

Não se engane, jamais fui dado a dar: minha frescura sempre foi máscula. Mas, filho único que sou, era fresco. Lá pelos três anos de idade só dormia cheirando a mão da minha mãe. Se antes ela havia cortado cebola, pedia pra lavar. E sabe o que é pior? A danada lavava. Mamãe é só amor.

Mentira, mamãe também era linha grossa. Uma vez me viu brincar com a chama de uma vela e pôs um dos meus dedinhos no fogo só para que eu aprendesse a ser ladino. Moral da história: nunca tive queimaduras pelo corpo nessa vida. Noutra vez, prometi que chegaria às cinco horas da tarde em casa, mas fiquei batendo bola na rua até às sete: foi a última vez que vi minha orelha esquerda. Moral da história: nunca me atrasei para uma reunião no trabalho.

Conselheiros tutelares, por favor: não tratem qualquer uma destas linhas como denúncia. Até porque provavelmente vocês apanharam muito mais do que eu na infância e sei que ainda amam as suas mães com toda força. Hoje pode parecer absurdo, mas naquela época o Congresso ainda deixava que os pais dessem algumas palmadinhas nos filhos, lembram? Por isso levei algumas bordoadas.

Só lembro de ter apanhado pra valer da minha mãe uma vez: chamei a senhora que ajudava na limpeza lá de casa de “puta fofoqueira”. Minha mãe ficou sabendo, o que de certa forma comprovava a minha tese, mas não houve perdão: estava tomando banho quando ela chegou, e a Havaiana cantou na minha bunda molhada. A água deve potencializar algum componente da Havaiana, juro, porque aquelas chineladas doeram pra valer, Jesus! Depois minha mãe ficou com pena e veio me abraçar... Nunca mais ofendi a puta fofoqueira. Em tempo: desculpe, mãe, guarde já esta Havaiana.

Toda pessoa normal viu – e reviu – Chaves no SBT. Lembro que num episódio, no Festival da Boa Vizinhança, Kiko tenta declamar um poeminha para as mães. “Mamãe querida, meu coração por ti bate...”. Chiquinha e Chaves nunca deixaram que ele completasse o verso. Mas precisava algo mais? Sinceramente, penso que não. O coração de um filho, por uma mãe, bate. Bate e pronto. Bate, inclusive, por conta e culpa dela. Então só posso dizer obrigado: obrigado pelo coração que um dia você me deu e que, na verdade, sempre foi seu, mãe.

PS: Agora, com vocês... Kiko:



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 15 de maio de 2012.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Dia da Sogra


Sogra: cuidado, mantenha distância
Hoje resolvi falar de uma pessoa muito importante para as nossas vidas. Não é amiga, não é parente, sequer é necessária, mas está sempre por perto. Sempre. Nas horas boas, e nas horas más que ela mesma cria. É uma pessoa que entra na sua vida sem pedir licença, acompanhando outra que você escolheu para si, como se fosse um brinde. É, um brinde. Como aquele boné que você ganha no posto de gasolina, aceita por educação, mas sabe que não tem serventia alguma na casa. Estou falando da sogra.

Resolvi falar das sogras ao descobrir que algum ladino decidiu dedicar um dia do ano para elas. Pois o tinhoso escolheu justamente o 30 de abril para isto, um dia depois do meu aniversário. Ou seja: até no calendário a danada me persegue. De começo foi um choque, mas já me recuperei. Afinal, se existe até mesmo o Dia do Cão, em 4 de outubro, por que não criar um dia para a jararaca? Acho justo.

Felicidade estampada ao ver o genro
Se a mulher foi feita da costela do homem, a sogra deve ter saído do calcanhar, já que vive pisando no seu pé. A verdade é que a mãe da sua esposa tem a força de uma rocha, mas está mais para uma pedra no sapato: é ela que tem o conselho certo para abalar qualquer casamento. E não precisa nem se dar ao trabalho de aconselhar, basta sugerir. “Cerveja com os amigos em plena terça-feira? Hmmmm...”. “Então ele foi para o futebol com os colegas de trabalho e você ficou sozinha em casa? Hmmmm...”. “Você já viu aquela nova secretária dele, a Shirley? Aquela loirinha de 18 anos, toda bonit... Ah, ele ainda não falou nada sobre a Shirley? Hmmmm...”. Coisas de sogra.

Sogra é aquela mulher que pergunta quando você vai encontrar um emprego melhor, que pague algo decente. Sogra é aquela mulher que põe em você a culpa pelo fato de a sua esposa ter engordado ou emagrecido – o que você anda aprontando com a filha dela, cretino? Sogra é aquela mulher que chega sem avisar e que fica sem previsão de partida. Sogra é aquela mulher que empata você sabe bem o quê. Certa vez ouvi um conselho que agora compartilho: não more perto o bastante para que a sogra o visite de chinelos, nem longe o bastante para que a sogra o visite com as malas. Fica a dica.

Sogra conversando de perto com Adão
Mas, verdade seja dita, nem todo homem é frequentemente perturbado pela sogra. O Adão, por exemplo. Há indícios de que ele vivia com a mulher em uma região belíssima, de água pura e cristalina, de verdes matas e clima agradável. O local era perfeito, chamavam até de Paraíso. Foi quando a mãe de Eva apareceu com algumas maçãs. Reclamou das roupas que eles usavam, pôs defeitos na casa, e marido e mulher se afastaram por uns tempos. Incomodado com a perturbação do sossego de outrora, o dono da propriedade resolveu despejá-los. Mas para não criar clima, que aquele Senhor não era disto, ofereceu a Adão e Eva um espaço em outro loteamento, mais afastado, menos nobre, chamado de Terra. Só tinha uma condição: o casal precisava levar a mãe da Eva, que lá pelas bandas do Paraíso já havia sido apelidada de Cascavel. O resto da história a gente já conhece e termina no dia 30 de abril. Parabéns, sogras.

PS: Agora, com vocês, Bezerra da Silva...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Semana News em 2 de maio de 2012.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Um ano a mais ou a menos?

Eu nasci em 29 de abril, Dia Mundial das Associações Cristãs Femininas. Você pode até não ter se dado conta, mas sabe o que isso representa em minha personalidade? Nada, absolutamente nada. Mas ainda assim é o dia do meu aniversário.

Estou a uma semana de completar mais 365 dias – escrevo a coluna aos domingos – e me pergunto: tenho um ano a mais ou um ano a menos? Não soube me responder. É fato que tenho mais tempo de vida, mais conhecimento, mais contas e credores. Em contrapartida me restam menos anos, menos prazo para realizar sonhos antigos, menos cabelos. Pode parecer um questionamento precoce, afinal completo 23 anos no próximo fim de semana. Mas a expectativa de vida no Brasil é de 73,5 anos, ou seja: na metade do próximo ano terei completado, tendo por base esta perspectiva, um terço da minha jornada. E sabe o que fiz até aqui? Praticamente coisa nenhuma. Apenas sai das fraldas.

O.k., o.k.: terminei a escola, me formei numa faculdade, juntei um punhado de bons amigos ao longo dessa vida e convenci uma linda descendente de italianos que sabe fazer tortellini a namorar comigo, então não posso reclamar da esfera pessoal. Aliás, com os quilos que ganhei durante a faculdade, eu mesmo virei uma esfera, pessoal. Mas estou trabalhando na silhueta.

No campo profissional também tive minhas conquistas. Comecei como empacotador de balas. Sei que é difícil imaginar um gordinho respeitando o estoque, mas levo trabalho a sério. Em seguida virei auxiliar-faz-tudo numa empresa que instalava placas e adesivos, função pouco recomendada a alguém que tenha medo de altura – sim, tenho pavor. Lembro-me que foram tempos difíceis, nos quais me reencontrei com Deus: era subir no andaime para a reza começar. Fiquei neste emprego poucos meses, já que logo depois me tornei empacotador de supermercado! Já na faculdade virei repórter, e regredi na vida...

Não sou do tipo pessimista. Sei que ainda tenho mais de dois terços de vida pela frente – e são, claro, os mais importantes. As perspectivas são muitas. Até porque odeio aquele papo de “estou velho demais para isto”. Algumas pessoas cismam em deixar os anos passar inertes; sempre há alguma boa (?) desculpa para não recomeçar, não voltar a estudar, não arrumar os dentes. Acabo de ver a seguinte manchete num site: “Emerson Fittipaldi, 65 anos, mostra talento ao estrear no wakeboard”. O Emerson Fittipaldi, minha gente, poderia estar sentado na cadeira de balanço fazendo tricô ou jogando bingo... E talvez você até devesse, Emerson. Mas esta é a prova de que nunca se é velho demais para começar qualquer coisa que seja.

Minha preocupação, caso ainda não tenha ficado claro, é a seguinte: fiz muitas coisas até aqui, mas nada que deva ficar para a posteridade. Dizem que ao longo da vida devemos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Um terço de existência praticamente completado, até o momento só cultivei no fundo de casa um pé de mamona, que já foi derrubado; criei um blog e arduamente trabalhei, com suor e látex, para ter filho algum. Analisando agora, parece que luto para não ser lembrado. Mas espero ser, ao menos pelos meus. Se serei, ainda não sei, mas já estou sem linhas e preciso encerrar os devaneios. E hoje quero acabar diferente: prefiro construir meus textos sozinho, mas é meu aniversário e vou me presentear com uma frase do Carlos Castelo, genial, que li nesse domingo. “O futuro a Deus pertence. E o passado, adeus”.

PS: Agora, com vocês, John Mayer...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 24 de abril de 2012.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os tempos de escola

Terceirão B do MGP em 2006; saudade
Os tempos de escola são, provavelmente, os melhores anos que você já teve e nunca mais vai ter. Lá você conhece as pessoas mais incríveis da sua vida. Lá estão os piores valentões prevalecidos que os homens vão encontrar. Lá estão as maiores vagabundas com quem as mulheres vão concorrer. É a escola, e tudo o que acontece na escola, que vai definir o quão preparado você está para a vida. E é na escola que essa sua vida atual começou a ser definida. Lembro que até nos falaram isso, mas na época ninguém acreditava naqueles velhos caretas...

Algumas das maiores lições que já tive aprendi na escola. Exemplos: na
Organizador de muvuca since forever
5ª série, jamais deixe de emprestar a borracha para o aluno tatuado repetente há quatro anos – é sério. E se você arranjar uma briga saiba que não importa o tamanho do seu oponente, apenas dê o primeiro soco e tenha certeza de que pode correr mais do que o outro. Não dê o primeiro soco caso ele tenha uma gangue. Não corra se você sabe que ele vai te alcançar – acredite, é pior. E por último: não arranje brigas na escola.

A maioria das primeiras experiências você acaba tendo no colégio: a primeira vez longe dos pais, a primeira prova, a primeira vontade
Escola: tempo de muita dúvida e cabelo
incontrolável de mijar sem poder sair da sala, o primeiro beijo. Ah, o primeiro beijo! Aquela sensação horripilante de ter outra língua que não é a sua dentro da boca... As garotas nesta época já ficaram “mocinhas” e os meninos já descobriram que “pegar”, sem contar para os amigos, não tem a menor graça.

À medida que o tempo passa e as crianças vão crescendo, meninos e meninas começam a se dar melhor; antes, elas eram apenas um grupo de frescas. É quando acontecem as primeiras atrações sexuais. E lá está a escola fazendo o seu papel: mostrando fotografias de gonorreia e
Prova da Thabata: consulta amiga
cancro mole para controlar a garotada. Mas nem tudo é terror: lembro-me de uma professora colocando camisinha numa banana. Eu tinha 12 anos, e aquele foi o momento mais erótico de minha vida até ali.

Você sabe, eu sei, e não serei hipócrita em minha própria coluna: é na escola que toda pessoa tem a sua primeira experiência com as drogas. Hoje eu posso falar disto com liberdade, pois já estou limpo desde o fim do Terceirão: a partir dali nunca mais tive contato com a Matemática, a Física e a Química. Aliás, o grande barato do vestibular é poder escolher só o que você quer fazer – e exatamente por isso a tarefa é tão difícil. Decidi fazer Jornalismo no último dia de inscrição.
Aqui ainda não conhecia meu futuro piso
Sério, eu simplesmente achava que tinha vocação para tudo – ou, vexame, para nada. Minha outra opção naquela época era ser professor de História. Passei nos dois vestibulares e defini a minha vida; aos 17 anos, se abriram dois caminhos para eu ser pobre e fiquei com um deles.

Se você já saiu da escola, não tem mais jeito. Pode ter aproveitado os melhores anos da sua vida de forma útil ou desperdiçado seu tempo rindo dos nerds que hoje lhe oferecem emprego. Caso ainda esteja numa, parabéns: você ainda pode ficar milionário ou passar o resto da
Último dia na escola; saindo escoltado
vida trabalhando no Bob’s. Se ainda estiver, curta o momento: passa rápido. Trate bem as tias da merenda. Venere os sábios e mal pagos mestres. Jamais falte às aulas, você vai sentir falta depois. E aproveite o máximo possível o tempo com os seus melhores amigos. Acredite, não importa quantas promessas vocês façam uns aos outros, eles vão sumir. Agora, se eu pudesse dar uma dica, apenas uma dica mesmo, diria o seguinte: nunca deixe de emprestar a borracha.

PS: Agora, com vocês, Toquinho, é óbvio...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 17 de abril de 2012.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vontade de meter o pau

Vez em quando todo mundo precisa dar uma metidinha. Eu, você, o português da padaria. E hoje acordei com vontade de meter o pau mesmo. Mas não me entenda mal, por favor. Só quero colocar ou pau – ou até mesmo o dedo, que seja – na política, na corrupção, no errado da vida. Enfim, hoje decidi mudar o mundo. E pra conseguir mudar a direção dos caminhos da humanidade nada melhor do que fazer um texto no conforto do lar, bebendo Coca-Cola. Esta é a primeira lição que todo grande revolucionário aprende. Então avante, guerreiro!

Já estou cansado de ver tudo errado e decidi dar um basta: marquei consulta com meu oftalmologista. No mais, estou farto de certas situações rotineiras que passamos a enxergar com naturalidade. Estou morando em Criciúma e por aqui o diferente é quando ninguém é morto durante a madrugada. O que é isso, companheiro? Mas que cidade de Deus é essa? Ó paí, ó! Talvez eu seja apenas um rapaz latino-americano – sem dinheiro no banco, com certeza – que veio do interior e ainda não se adaptou a uma cidade maior. Mas é que em Araranguá a coisa era bem mais tranquila: lá só tinha homicídio a cada dois dias.

Reclamação e política são sinônimas – e no campo político a grama também já virou lama: um lamaçal danado. Em Brasília, se gritar pega ladrão só fica mesmo o Demóstenes Torres. Ficha limpa? Nada, cara de pau. Quem já enganou a sociedade por tanto tempo não se custa a encenar por mais um ato. É que a gente ainda não entendeu, mas a lei do capitalismo no Distrito Federal é diferente: lá é receber do povo e pagar de santo. E caso alguém tenha qualquer dúvida basta fazer uma consulta nos nossos anais. Colocam tudo lá.

Mas o que mais me revolta mesmo, mais me revolta mesmo, é pessoa querendo discutir piada. Tenho pré-disposição ao humor e sofro com isto. Sabe aquele tipo de gente sem graça e sem sal que vive dizendo na Páscoa que coelho não bota ovo, que questiona o papagaio falante do conto, que pergunta se realmente achamos que todos os portugueses são burros? Poxa, será que realmente ainda é necessário provar? O.k., o.k.: coelhos não põem ovos, papagaios não formam frases longas ou ligam para tele-sexos e portugueses não são burros. Vocês têm razão. Pronto, derrotaram o humorista. Agora durmam com um silêncio destes! E só peço uma coisa aos chatos de plantão: não me chamem caso acordem. Estarei debatendo Marx com o Louro durante toda a madrugada...

Profissão repórter

Dia 7 de abril, sábado, foi o Dia do Jornalista. E você pode até não saber, mas convive – ou conviveu – com a melhor jornalista que o mercado já produziu: a sua mãe. Mãe te informa sobre os afazeres da casa, te passa os contatos de toda a família, agenda as consultas médicas, te assessora com a lavagem da roupa e ainda te deixa a par da previsão do tempo. Mãe é um jornal completo, que sai (da cama) todo dia bem cedinho e que nunca atrasa. Mãe só não tem caderno de esportes, mas aí contrata um pai para estagiar...

Jornalista que teve pais éticos só entrega verdades. Não se esqueça de no futuro agradecer os meus, sociedade.

PS: Agora, com vocês, Zé Geraldo, voltando ao tema inicial da curta coluna...



Texto publicado na coluna “Devaneios” do jornal Sem Censura em 10 de abril de 2012.